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Aprendendo com o inimigo.

24-01-20

Ronaldo D. Fontes

Instituto Foro do Brasil

Presidente

 

Não importa o lugar em que o intelectual desempenha a sua função,  se no partido, no Estado, no sindicato, nos movimentos populares, nas organizações sociais e culturais ou na academia. O que conta para Gramsci é a sua vinculação de classe, a relação democrática que o intelectual estabelece e o horizonte ético-político que descortina, isto é, a capacidade de promover um projeto socialista que reconheça os subjugados como sujeitos políticos. Nesse sentido, há em Gramsci uma relação estreita entre o conceito de “orgânico” e o de “ético-político”, se considerarmos que os dois remetem à universalização da democracia popular. E essa só acontece com a construção de uma hegemonia capaz de entrelaçar em unidade, subjetividades individuais e “vontade coletiva”, de transformar em liberdade a necessidade, quer dizer, de operar o processo de “catarse”, de subjetivação, que é “o ponto de partida de toda a filosofia da práxis”(Gramsci, 1975, p. 1.244). Então, em Gramsci, os intelectuais são “orgânicos” a um partido, a um grupo social, ao Estado, enquanto trabalham para superar o momento “econômico-corporativo” e o momento jurídico administrativo e se lançam ao lado dos “subalternos” para criar a fase da universalidade “ético-política” (idem, ibid, p. 1.584).

Em tempos pós-modernos, os intelectuais “orgânicos” não se tornaram obsoletos, mas encontram-se diante de novas tarefas. Como nunca, precisam aprender com Gramsci a difícil arte de lidar com a diversidade sem cair no relativismo, de lutar contra os dogmas sem deixar de buscar a verdade, de respeitar a particularidade sem se pulverizar, de construir a unidade sem transformá-la em uniformidade, de realizar a democracia popular contra os simulacros pós-modernos. Se essas considerações estiverem certas, torna-se necessário pensar também novos partidos com dimensões éticas e políticas capazes de “fundar um novo Estado” (idem, ibid., p. 1.111).

No Brasil, ao longo dessas últimas quatro décadas, inúmeros intelectuais com posições de resistência à ditadura e cumplicidade com os movimentos populares passaram a “funcionários” de partido e a gerentes técnico-administrativos dos aparelhos do poder governamental. Aos poucos, vimos surgir uma legião de especialistas em estratégias eleitorais, em profissionais da imagem, em artimanhas jurídicas, em hibridismo ideológico e tráfico de influência.

Esse processo tem sido uma das causas da profunda crise política, hoje em curso, que deixa muitos intelectuais calados e dissemina o descrédito na democracia e no sistema representativo em uma sociedade consternada.

Enquanto os partidos e seus intelectuais permanecerem na esfera do econômico, da burocracia e do populismo, não haverá o salto para a esfera ético-política, a única em que é possível pensar o país como um todo e em condições de universalizar direitos. Por isso, contrariamente ao que se pensa,  nunca como hoje o Brasil precisou tanto de novos intelectuais “orgânicos”. Dos que – como Gramsci nos lembra – forem capazes de se lançar em direção a uma das mais urgentes e audaciosas tarefas:

A partir do momento em que um grupo subalterno se torna realmente autônomo e hegemônico, suscitando um novo tipo de Estado, nasce concretamente a exigência de construir uma nova ordem intelectual e moral, ou seja, um novo tipo de sociedade e, portanto, a exigência de elaborar os conceitos mais universais, as armas ideológicas mais sofisticadas e decisivas.

(Gramsci, 1975, p. 1.509)

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